Vergonha de ser português, Orgulho Gay
Faltam quatro dias para fazer oito anos. Oito anos são duas legislaturas - no caso até foram mais por causa das dissoluções, dos pântanos e das fugas. Oito anos sobre quê, alguém sabe? Eu sei: oito anos sobre o dia em que tive, como nunca antes e, até agora, nunca depois, vergonha de ser portuguesa. Oito anos sobre o dia 28 de Junho de 1998, o do primeiro referendo português - aquele sobre o aborto, lembram-se?
Vergonha porquê, perguntam. O povo votou, o povo decidiu, como gostam de dizer aqueles que afinal - apesar de todas as previsões em contrário, de todas as sondagens de esmagadora maioria a favor da mudança da lei - festejaram o resultado. Afinal ganhou o não, mesmo se 68,6% dos eleitores não votaram e se a diferença foi de um cabelo. E ficou o não, mesmo se, de acordo com a Constituição, o número de votantes assegurava o carácter não vinculativo do referendo. E permanece o não, mesmo se aqueles que o defendiam proclamavam, após o fecho das urnas e perante as previsões (erradas) de derrota, que o referendo não devia contar.
A minha vergonha é essa: a de um povo que chamado pela primeira vez a falar directo sobre um assunto que diz respeito a todos, foi dar um mergulho porque o dia estava bonito. A vergonha de saber que a lei que existe, e que passa às mulheres um atestado de incompetência para decidir pela sua cabeça se querem e podem ser mães - ao mesmo tempo que atesta que todas têm capacidade para o ser, mesmo que o não desejem -, só é imposta a quem não tem recursos para ludibriar. A vergonha de saber que há tanta gente neste País para quem essa monstruosidade incomoda menos que a perda de um bom dia de praia.
Gostava de não voltar a sentir essa vergonha. Gostava de viver num País que, como a Espanha nas palavras do seu primeiro-ministro, José Luis Zapatero, aquando da aprovação da lei que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, se esforçasse por ser mais decente. Que fizesse por não humilhar os seus cidadãos nas escolhas e relações mais privadas, e percebesse que modernidade ou é isso ou não é. Um país em que não seja preciso fazer marchas do Orgulho Gay, como a que hoje, a partir das 15 horas, desce a Avenida da Liberdade (em eco de outro 28 de Junho, o de 1969 em Nova Iorque e do ataque ao bar Stonewall), porque a humilhação quotidiana terá deixado de ser a regra - e a lei.
Vergonha porquê, perguntam. O povo votou, o povo decidiu, como gostam de dizer aqueles que afinal - apesar de todas as previsões em contrário, de todas as sondagens de esmagadora maioria a favor da mudança da lei - festejaram o resultado. Afinal ganhou o não, mesmo se 68,6% dos eleitores não votaram e se a diferença foi de um cabelo. E ficou o não, mesmo se, de acordo com a Constituição, o número de votantes assegurava o carácter não vinculativo do referendo. E permanece o não, mesmo se aqueles que o defendiam proclamavam, após o fecho das urnas e perante as previsões (erradas) de derrota, que o referendo não devia contar.
A minha vergonha é essa: a de um povo que chamado pela primeira vez a falar directo sobre um assunto que diz respeito a todos, foi dar um mergulho porque o dia estava bonito. A vergonha de saber que a lei que existe, e que passa às mulheres um atestado de incompetência para decidir pela sua cabeça se querem e podem ser mães - ao mesmo tempo que atesta que todas têm capacidade para o ser, mesmo que o não desejem -, só é imposta a quem não tem recursos para ludibriar. A vergonha de saber que há tanta gente neste País para quem essa monstruosidade incomoda menos que a perda de um bom dia de praia.
Gostava de não voltar a sentir essa vergonha. Gostava de viver num País que, como a Espanha nas palavras do seu primeiro-ministro, José Luis Zapatero, aquando da aprovação da lei que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, se esforçasse por ser mais decente. Que fizesse por não humilhar os seus cidadãos nas escolhas e relações mais privadas, e percebesse que modernidade ou é isso ou não é. Um país em que não seja preciso fazer marchas do Orgulho Gay, como a que hoje, a partir das 15 horas, desce a Avenida da Liberdade (em eco de outro 28 de Junho, o de 1969 em Nova Iorque e do ataque ao bar Stonewall), porque a humilhação quotidiana terá deixado de ser a regra - e a lei.
Por Fernanda Câncio,
Jornalista do Diário de Notícias


2 Comments:
Grande artigo de jornal, sim senhora. E faço minhas as palavras dela.
Especialmente pk sei k os mais moralistas sobre o assunto são mts vezes aqueles k já levaram as filhas a Espanha p n sufrerem a "vergonha" de terem 1 filha adolescente grávida.
Tem toda a razão! Mas veja... estamos em Portugal, este país à beira mar plantado sempre fez tudo do avesso... primeiro alcatroam a estrada, depois fazem um buraco para passar o gas e remendam, passado uma semana, poê os fios electricos e remendam, passado outra semana, a canalização... e fica tudo tão mal ou pior do que estava. O mesmo se aplica ao governo.
Dizem que é preciso mudar as estruturas para Portugal avançar. Não pedem opinião sobre questões de fundo, no entanto, quando toca à liberdade individual, julgam-se no direito de mexer na nossa intimidade e pô-la a julgamento público (estejamos a falar do casamento homo, homoparentalidade ou aborto).
Há um evidente problema entre o que é público e privado, onde acaba a esfera pública? Será que o governo tem o direito de por toda a gente a decidir se uma união deve ser legal juridicamente ou não? Se alguém quer ser pai/mãe quando temos milhares de crianças em instituições a serem mal tratadas? Se uma mãe tem condições para criar um filho com amor, estabilidade, segurança monetária?
O problema do governo está na invasão de propriedade. O elevar o privado ao público, não levando (porque não lhes convém) o público ao privado.
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