Sociologia & Política

"We don't need no thought control" Pink Floyd

Tuesday, June 26, 2007

O porquê da Marcha do Orgulho Gay

Olá a todos! Em consequência do comentário feito pela Suspeita, minha colega de profissão, achei que era da maior pertinência expor aqui o que tive o prazer de dizer já noutro blog :

Em primeiro lugar a questão do orgulho é do mais pertinente que já li nos últimos tempos [...].À partida não se vai ter orgulho de ser heterossexual porque é o que está instituído. Não se sente a necessidade de afirmação de algo que à partida é legitimado pela sociedade. Ninguém questiona a norma nem faz da norma estandarte! O orgulho gay prende-se com uma lógica inerentemente subversiva do que acabei de dizer. Grande parte da comunidade homossexual sente-se oprimida, porque não pode expressar a sua afectividade em público, porque não o pode dizer e viver a sua sexualidade e emotividade como os heterossexuais o fazem. Isto leva a que facções mobilizadas em movimentos associativos se juntem para tentar mudar esta realidade. E a realidade não se muda de um dia para o outro, muda-se 1º com um choque (as ditas aberrações, as cores, as penas e as bichas), qualquer dia até começa a haver simpatia pela causa (o que não elimina a homofobia), e, quem sabe, qualquer dia com a educação sexual nas escolas.... Esta marcha faz parte do combate à homofobia e de uma tentativa de uniformização de direitos sociais e legais entre pessoas com sexualidades diferentes.Para perceber melhor (ou não…) a lógica é bastante simples:Podemos perguntar-nos até que ponto é que o outro (com outra sexualidade que não hetero) é diferente de “nós” (hetero) por assumir uma prática considerada desviante. Se o outro é observado como “outro”, é porque o “eu” se diferencia desses “outros” ou diferencia os “outros” do seu “eu”, além de que todo o “outro” é também um “eu” que diferencia e é diferenciado. Esta diferenciação mútua é, no entanto, condicionante do “eu”. Essa consciência relacional de que só havendo os “outros” é que existe um “eu”, e que só havendo um “eu” pode haver um “outro”, leva-nos a pensar na sociedade como um todo relacional. Esta consciência é a consciência do “eu” de que está constantemente a ser avaliado pelo “outro” segundo as suas acções perante os outros. Ele próprio avalia-se tendo em conta o que os outros acham, o que condenam e o que consideram correcto, tentando agir em conformidade, o que é, segundo o sociólogo Herbert Mead, um “eu situacional”, que age em cada situação conforme o “outro” com que está a interagir. No fundo, o “eu” é o próprio objecto da sua consciência e da consciência do “outro”. Observe-se que, por outro lado, esta consciência é castradora. Ela afecta o indivíduo na medida em que, para este ser aceite pelo o outro, reage com um “eu” que funciona como uma máscara – o homossexual esconde o que é, retrai-se para não ser estigmatizado. Ou seja, essa consciência têm um duplo efeito de estigmatização em que o individuo estigmatizado estigmatiza-se automaticamente através da consciência dos constrangimentos e sanções sociais que a sociedade lhe imputa.


Esperando ter ido ao encontro do questionado,

Ana

7 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Ana, não acredito muito que seja pelo choque a mudança de mentalidades. Nunca foi, não será no futuro, certamente! Percebo a lógica que está por detrás da marcha, a necessidade de provar que ser homossexual é tão normal como ser heterossexual, mas não acredito que o meio utilizado consiga alcançar o seu fim último! De qualquer forma, deste-me uma ideia para o próximo post a publicar no meu blog. Se quiseres, aparece depois por lá e comenta...

6/26/2007 12:08 pm  
Anonymous Anonymous said...

Não acredito que se possa chamar aos gays aberrações. É abertamente um preconceito social vindo das classes desfavorecidas cuja evolução da mentalidade é mais dificil que o acreditar numa realidade existente. A masculinidade do sociedade é abertamente simbólica, aliás é esse simbolismo que garante aos homosexuais uma maior liberdade de movimentos. Infelizmente o lesbianismo é mais culpabilizado devido á noção de macho que absorve todos os dominios, desde o social, o económico e o cultural. Se bem que se possa pensar a homosexualidade em Portugal tem vindo a ser aceite em todas as áreas, contrariamente nos estados herdados do "sovietismo" onde a homosexualidade masculina ou femenina é considerada uma aberração perante dogmas herdados da cultura comunista. Felizmente a mudança mental, em relação á questão, em Portugal realiza-se calmamente e sem grandes dramas.

6/26/2007 9:51 pm  
Blogger Ikkuna said...

Obrigado Suspeita e Xiólogo pelos vossos comentários no sentido de uma discussão inteligente e informada. =)

Quanto à "Márcia", embora duvide da veracidade do nome, é convidada a deixar de publicar esses comentários no meu blog. Se não gosta do que lê, do cientificamente provado, a porta da rua será sempre a primeira hipótese que deve considerar, serventia da casa!


Um beijinho*
Ana

*Epá... isso é um bocado lésbico... =/

6/26/2007 10:09 pm  
Blogger Ikkuna said...

Zangada? Chamarem-me de Fufa, Lésbica... ou outros epítetos que tais fazem-me sentir realizada. Houve um dirigente associativo que me disse quando comecei a estudar as questões de género e sexualidade, mais propriamente a Homofobia, que se eu me ia dar com "eles" iria ser tratada como "eles"... É um verdadeiro orgulho chamares-me isso, porque finalmente sinto que a minha linha de investigação-acção está a dar frutos, não só pelo meu nome começar a sair do anonimado mas também por sentir que estou a fazer algo no terreno!
Tal não seria possível sem o verdadeiro apoio das Panteras! E dos centros de investigação com os quais vou mantendo contacto! A eles o meu maior Obrigado.


Quanto ao teu comentário sobre o meu rabiosque bem geitoso por sinal, acabou de se denunciar... e se não parar com os comentários não se esqueça que pode vir a ter consequências disso ;).

Obrigado pelos seus comentários. Não foram profícuos, mas deu-me material para um artigozito!

So long...


Ana

6/26/2007 10:47 pm  
Blogger Ikkuna said...

Não desistirei desse meu objectivo! Obrigada pelo apoio!

Até mais ver!

Ana

6/26/2007 11:25 pm  
Blogger Shima said...

Quero começar por deixar claro que o facto de te considerar uma pessoa inteligente com (algumas) ideias louváveis, não anula de forma alguma a última imagem que tive de ti, e como tal o vir aqui comentar não é de modo algum uma tentativa de reconciliação nem nada semelhante: é apenas uma resposta inteligente a um ponto de vista inteligente, com toda a impessoalidade possível.

«À partida não se vai ter orgulho de ser heterossexual porque é o que está instituído. Não se sente a necessidade de afirmação de algo que à partida é legitimado pela sociedade», concordo, mas ressalvaria que as identidades de género não são apenas legitimadas pela sociedade, são sim impostas ao indivíduo deste antes do seu nascimento (com a escolha da cor das roupas, dos brinquedos, do nome, etc.).
«Esta marcha faz parte do combate à homofobia» no entanto, deixaste de parte a dualidade de reacções que a marcha desperta, claramente exemplificada pelos comentários deixados. Este modo de lutar contra a homofobia, em muitos casos, acaba a acender o medo da diferença, há pessoas que se sentem ameaçadas pela extravagância do movimento, acabando por isso a fechar-se ainda mais contra este grupo social. Como diria Jean Rhys “there is always the other side, always”.
Apesar de concordar com o que dizes sobre a relacionalidade das identidades, e de como estas se definem sempre em termos de semelhanças (entre aqueles com uma sexualidade desviante) e diferenças (em relação aos que compõem a norma), julgo que estás a cometer o mesmo erro que as feministas cometeram: estás a reduzir o grupo social homossexual apenas à sua condição desviante, e estás a universalizar as suas experiências como se todos sentissem a mesma opressão. Partindo da ideia de Judith Butler de que “If one is a woman, that is surely not all one is”, também as pessoas com uma sexualidade desviante não são todas iguais, nem apenas homossexuais, e como tal não partilham todos a mesma experiência de «constrangimentos e sanções sociais». As suas experiências estão dependentes dos já clássicos condicionantes que são a classe, a etnia (uma vez que discordo do conceito de raça), o contexto social, etc. Uma pessoa homossexual branca, cujas origens são conservadoras não terá de modo algum a mesma experiência que, digamos, uma pessoa heterossexual negra proveniente de um meio social e cultural esclarecido e aberto. Mais simples ainda: um homem heterossexual não sentirá de modo algum a mesma repressão que uma mulher homossexual, uma vez que vivendo nós numa sociedade patriarcal e ainda muito antropocêntrica, os órgãos sociais vigiam com muito maior agressividade a sexualidade masculina.
Procurando abrir caminho a uma discussão inteligente, gostaria de terminar com uma pergunta (sentindo-me na obrigação de salientar que esta não é da minha autoria): Se a heterossexualidade é “normal” e “natural” como somos levados a acreditar desde que nascemos por todas as instituições sociais, porque é que as mesmas despendem tanta energia e empenho em assegura-la?

6/28/2007 9:10 pm  
Blogger Ikkuna said...

Bem,

Antes de mais, Shima, muito obrigado pelo teu comentário. Não posso deixar de referir que a ideia que expressas no teu primeiro parágrafo não é, de todo, partilhada por mim. Gostaria muito, muito mesmo, mesmo que isso não apague a última imagem com que fiquei de ti também.

Ora bem, vamos ao que interessa – discutir a marcha. Deixa-me dizer-te que dentro de ti está uma socióloga por lapidar! =P Disseste e muito bem que as identidades de género estão instituídas na sociedade antes do indivíduo. Os gestos que tu enunciaste (as cores das roupinhas, os brinquedos e o nome) não passam da concretização, da objectivação dessa mesma matriz que está instituída. Em jargão sociológico, essa matriz é o que nós chamamos de Habitus, um conceito original de Pierre Bourdieu, o nosso actual paradigma. O Habitus um princípio de geração e estruturação de práticas e de representações que podem ser objectivamente reguladas e regulantes (estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes*), o que se passa é que os indivíduos ao fazerem todas essas práticas por ti enunciadas, não estão só a praticar o que apreenderam da sua vivência em sociedade, estão também a imputar na criança as suas mesmas matrizes de práticas e de apreensão de signos que nos diferenciam em sociedade. Estão no fundo a dar-lhe apetências de vivência em sociedade**.
Quanto à ambiguidade de sentimentos auferidos pela população em geral quando observam de fora a marcha, o que te posso dizer é que claramente irá sempre haver factores de resistência à mudança. Tudo o que é estranho aos comportamentos ditos “normais” (com todas as aspas que se podem por nesta palavra), que foge ao que está instituído causa sempre algum tipo de resistência em certos segmentos da sociedade. Não podemos de forma alguma esperar que esta manifestação por uma causa toque, de maneira igual, todos os grupos sociais. No entanto, podemos esperar que à medida que vai sendo mais regular eventos LGBT, mais estes serão “normalizados”, até que deixarão de ser novidades, freak shows or whatever people call it.
Uma ressalva da maior importância que tenho de fazer enquanto profissional é, claramente, dizer que a homossexualidade não é um desvio. And that’s a statement. Posso ter explicado de maneira incompleta no outro post, por isso reformulo rapidamente – não existe o normal. Existem pessoas que seguem mais ou menos o que está instituído, seguem normas, isso não faz delas normais (em tom pessoal, diria que essas é que são freaks and they freak the hell out of me!). A homossexualidade, tal como outras sexualidades se as quisermos segmentar por facilidade analítica, sempre existiram e já foram norma – gregos, romanos e como por aí se sabe de Sócrates e Platão e por aí fora…Interessante será perceber porque é que, de um momento para o outro, deixou de o ser. Portanto, a diferença pauta-se na relação inter-individual e, também nesse sentido, as experiências vividas são diferentes segundo a rede de relacionamentos de um indivíduo. Quanto a isso estamos de acordo. Agora, o que temos de pensar é o que acontece com mais regularidade. Lá porque nem todos sofrem estigmatização sobre a sua sexualidade, não quer dizer que isso deixe de ser um problema social (e sociológico, neste caso) – como tal deve ser debatido, estudado e devemos tentar arranjar uma solução para o problema da LGBTfobia, vulgo, homofobia (embora estes conceitos não sejam pares, o segundo é mais conhecido, embora mais restrito).
Crendo já ter respondido por portas travessas à tua pergunta, e cito: “Se a heterossexualidade é “normal” e “natural” como somos levados a acreditar desde que nascemos por todas as instituições sociais, porque é que as mesmas despendem tanta energia e empenho em assegura-la?”, faço aqui um apanhado – a heterossexualidade não é normal, é a norma. É considerada natural pelo sentido biologicista da relação sexual e dos órgãos inerentes a ela no seu sentido mais restrito. As “instituições sociais” não despendem energia e empenho a assegurá-la, ou melhor, despendem mas não de uma forma tão organizada e racional. Apenas são resistentes à mudança. Há uma data de factores de contingência, como no caso português, o estado autoritário de Salazar e a forte presença da igreja católica, que constringem grande parte da população. Há grupos na igreja para demoverem os homossexuais de o serem porque é pecado. Há pais que espancam os filhos porque tal vai contra a moral e bons costumes, etc.
És sempre bem-vinda ao meu blog. Aparece!
Beijo
Ana

* E quem não sabe parafrasear e perceber isto, não é digno de dizer sequer o nome do professor Pedro Vasconcelos!
** Isto de uma maneira muito simplificada, porque para quem não teve sociologia… complica-se! Se formos então falar de género, e pior ainda, identidade de género… não saíamos daqui hoje… Aliás… agora que falo nisso… podia pegar nisso para a minha tese! ^_^

És sempre bem-vinda ao meu blog. Aparece!
Beijo
Ana

6/29/2007 9:22 pm  

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