Sociologia & Política

"We don't need no thought control" Pink Floyd

Tuesday, January 10, 2006

Quão diferente é o outro?


Quão diferente é o outro?”, é a pergunta que se impõe sem que esforço algum façamos após as leituras propostas, nomeadamente de Pierre Bourdieu – “Espaço social e espaço simbólico”, Miguel Chaves – “Do interior da cidade para a teoria sociológica; Perguntas e respostas acerca do Casal Ventoso” e Campenhoudt – “Pesquisa de referência: Richard Hoggart, A cultura do pobre.”.

Partamos do princípio que o “outro” é relacional. Só há “outro” se houver um “eu”, só há “um” se houverem mais. Mas nesta perspectiva, não fiquemos por aqui. Se o outro é observado como “outro”, é porque o “eu” se diferencia desses “outros” ou diferencia os “outros” do seu “eu”, e não nos esqueçamos porém, que todo o “outro” também é um “eu” que diferencia e é diferenciado. Assim podemos concluir, tal como Bourdieu, que a diferença é relacional.

Esta diferenciação mútua é, no entanto, condicionante do “eu”. Essa consciência relacional de que só havendo os “outros” é que existe um “eu”, e que só havendo um “eu” pode haver um “outro”, leva-nos a pensar na sociedade como um todo relacional. Observe-se que um indivíduo, desde o momento que nasce, seja numa tribo ou no centro de New York, está a relacionar-se constantemente com o outro, e essa relação, nos seus primórdios vai basear-se numa aprendizagem. Concebendo que essa aprendizagem da língua, dos valores, da ética, de um comunicar específico daquela sociedade, desde a roupa até à escola que irá frequentar ou da educação específica que irá receber, representa num todo, a sua condição e a sua posição na sociedade. Esta posição no espaço social é no entanto relacional. A sua posição irá ser delimitada exactamente pelos vários “outros” em sociedade, mas como?

Voltemos à consciência relacional, já referida acima. Esta consciência é a consciência do “eu” de que está constantemente a ser avaliado pelo “outro” segundo as suas acções perante os outros. Ele próprio se avalia tendo em conta o que os outros acham, o que condenam e o que consideram correcto, agindo em conformidade, é o que, segundo Mead, se pode chamar de um “eu situacional”, que age em cada situação conforme o “outro” com que está a interagir. No fundo, o “eu” é o próprio objecto da sua consciência e da consciência do “outro”. Observe-se que, por outro lado, esta consciência é castradora. Ela afecta o indivíduo na medida em que, para este ser aceite pelo o outro, reage com um “eu” que funciona como uma máscara. Apenas ainda não conclui se essa mascara é uma protecção do “eu” para não ser estigmatizado ou se é a estigmatização em si. Uma vez que, o “eu”, aquando na sua reflexão sobre si próprio se irá perguntar sobre a sua identidade. Afinal, um “eu” único é a junção destes vários “eus” relacionais, no entanto haverá um “eu” para o próprio “eu”? Se há, será com certeza a consciência de si próprio. Mas aí voltamos a um ponto. A consciência de si próprio é construída em relação ao “outro” – isto é, um “eu” situacional. Assim, concluo que não há um “eu” puro, puro no sentido de não ser influenciado na sociedade. Somos construídos na sociedade e moldados pela sociedade em relação a um “outro”, isto é somos construídos em sociedade pelas relações estabelecidas.

Até agora demonstrei como o indivíduo toma consciência de si e do outro, no entanto, este processo de diferenciação não está de maneira alguma completo. As posições definidas socialmente, pela consciência do “outro” sobre o “eu”, não se confinam ao individualismo. Por outras palavras, não podemos analisar os processos de diferenciação pela relação entre indivíduos que actuam isolados na sociedade, uma vez que todos os valores, éticas, maneiras de pensar, são construídos em sociedade na relação com um “outro” colectivo. Aliás, pensar assim era negar a sua natureza social. Esta relação com o “outro” colectivo aproxima e afasta indivíduos conforme as suas características e hábitos. Para haver uma melhor compreensão darei um rápido exemplo. Alguém que vista roupas de marca conceituada, que jogue golfe e bridge, frequentador de um certo tipo de áreas públicas, irá com certeza aproximar-se de quem tenha hábitos similares, para assim poderem partilhar gostos, correntes ideológicas, entre outros. Enquanto alguém que vista roupa de preço mais acessível, que provavelmente nem pratica desporto pela falta do tempo que o trabalho rouba, caseiro por necessidade, irá ter uma tendência para formar um núcleo de amigos com características similares. Vemos assim uma tendência para uma polarização dos indivíduos para certos grupos com características específicas. Estas características e estes hábitos são produzidos segundo dois tipos de capital: cultural e monetário. Assim, quem tem um capital económico e cultural mais equilibrado tenderá a juntar-se com seus similares e quem tem um capital cultural e económico baixo agregar-se-á a quem também o tiver. Criando assim as posições sociais de quem controla e de quem é controlado, de quem domina e de quem é dominado. Por outras palavras estas posições são condicionantes de um grupo social perante outro. Quem tem capital monetário e cultural detém os meios de produção bem como valores e éticas específicos. Quem tem menos capital global, tem de estudar em órgãos dominados por pessoas com capital cultural elevado e são educados conforme as éticas e valores criados pelo grupo dominante na sua estrutura relacional. Quem não detém os meios de produção, tem de trabalhar para quem os tem, sendo assim usado como força produtiva, gerando produtos e capital, uma vez que o que produz irá por ele ser comprado para poder consumir. Este é um exemplo de instrumentalização do grupo dominante para com o grupo dominado, como vemos um grupo força o outro a permanecer na sua posição dominada, favorecendo o seu próprio posicionamento, uma vez que o grupo que trabalha cria riqueza para os detentores de um maior capital global e mantém a sua própria posição inalterada, uma vez que a remuneração pelo seu trabalho é gasta para comprar aquilo que produz. As diferenças de hábitos destes dois grandes grupos simbólicos é o que produz mais diferença. A constante vivência em sociedade torna o “outro” diferente por não ter os mesmos hábitos que o “eu”. Assim desde o vestuário até à linguagem usada, tudo é simbolismo de diferença e de posição social. Esta tendência para um olhar diferencial relativo ao “outro”, provém do enraizamento dos valores próprios de cada grupo simbólico, é um olhar caricatural dos hábitos do “outro” em comparação com os próprios hábitos do “eu”, um olhar que ridiculariza o “outro” para seu próprio interesse, para a sua própria valorização. A classe ou grupo social simbólico age através do indivíduo que diferencia. Um exemplo comum de caricatura etnocentrista é exactamente o exemplo de um “reality show”, em que a cultura popular adere em massa como um momento de diversão, enquanto o grupo dominante é capaz de ver para, alegadamente, ver como alguém se submete a situações controversas por dinheiro, e achar uma diminuição intelectual da cultura popular, alimentando o próprio ego do grupo enquanto superior.

A diferenciação pode ser notada até na constituição de uma cidade. O centro é a residência de elite, o subúrbio, o bairro é a residência das classes (simbólicas) mais desfavorecidas, e é interessante notar a estigmatização presente da classe dominante para a classe dominada, há quase um ostracismo imanente da classe dominante para com a outra. Ostracismo porquê? É de certa forma, juntar o que é útil à classe dominante, os seus gostos e hábitos. O Aumentar os preços seja de rendas, terrenos e bens de primeira ordem, impossibilita classes inferiores de morarem em certos sítios, de usufruírem de certos privilégios, de “se dar ao luxo” como se diz popularmente de comprar em certas lojas frequentadas por pessoas de classe superior economicamente. É um empurrar para dentro de áreas como bairros, as classes dominadas. É um “fechar” os grupos desfavorecidos dentro de uma área confinada, de onde surge uma cultura muito própria, bastante peculiar, que é influenciada pelo exterior e influencia a cultura dominante. Estas sub culturas são o nascer de ideologias próprias, maneiras de agir, de vestir, enfim, o nascer de hábitos que, têm tanto de diferença da cultura dita “popular” como fazem parte desta e diferenciam-se da cultura da classe dominante.

Por vezes somos confrontados com uma palavra bastante conhecida de qualquer um de nós – o gueto, quem vive na cidade sabe bem onde ficam os guetos. Procurando nas reminiscências da história, ficamos a saber que eram quarteirões em quaisquer cidades europeias em que os judeus eram forçados a viver. Hoje em dia são áreas da cidade em que habitam grupos minoritários, áreas especialmente pobres e densamente populosas em que o grupo experiência discriminação por parte da cultura dominante. No entanto, o significado de gueto vem intimamente associado ao termo “ambiente de isolamento” – ambiente onde um grupo de pessoas vive ou trabalha em isolamento, quer por escolha ou por circunstância. Estes guetos a que são confinados os grupos minoritários, tanto pela sua etnia, religião, modo de vida, ou outro motivo superficial, motivado por ideologias naturalistas dominantes, são poços de revolta social em que a intolerância e discriminação do grupo dominante, obriga por vezes a tomada de um caminho considerado maioritariamente desviante. O modo como o “eu” do indivíduo descriminado apreende essa intolerância, é um factor fundamental na conduta por ele tomada. O indivíduo actuará em conformidade com o que acreditar ser correcto para a obtenção de uma auto-confirmação. Vejamos o que diz Turner:

Social structure must, at the micro level, be able to confirm self; and if such is not the case, then individuals will seek to change or leave a structures interaction. [J. Turner, 1998, p.202.]

Mas esta confirmação não é, neste caso, para o grupo maioritário sentir, é sim uma confirmação de si para si mesmo e para a minoria do gueto, com toda uma ideologia própria que incentiva ao desvio, mais do que a ideologia dominante incentiva a não o fazer, mesmo havendo uma multirreferencialidade dos valores dominantes que vão contra a prática do desvio, o indivíduo apreende outros valores criados dentro do gueto que coincidem com a prática desviante, tornando essa prática legítima, sem culpabilização do indivíduo, tornando certas práticas rotineiras. Este tornar rotineiro é quase exigido pelo indivíduo desviante, que assim, como senso comum, como uma consciência prática inconsciente, faz com que o indivíduo deixe de se questionar sobre a sua actividade desviante, mesmo quando discriminado pelo seu modo de vida desviante. Discriminado porque é ilegal porque é desviante, para a classe dominante que cria e impõe regras, regras que sem as quais o indivíduo nunca seria rotulado como desviante. Mas note-se que esta rotulação tem um fim moral que tenta castrar o indivíduo das suas actividades e condutas desviantes, é uma rotulação que impõe uma culpabilização do “eu”, uma consciência do “eu” que seja constrangedora da sua posição desviante, dando ao individuo uma vergonha que, sendo pública torna-se bem mais eficaz no demover o individuo de certas práticas desviantes.

Em suma, há certas ideias que se devem manter após este ensaio. As condições sociais de existência, a sua diferenciação e o seu efeito na estrutura, acção e na consciência do “eu”, condições essas interiorizadas no indivíduo, dando-lhe características, definindo o sujeito no processo de relações sociais e confinando-o a uma posição no espaço social simbólico, criando universos distintos entre cada cultura. Fica a noção de que a importância do “outro” é relativa ao “eu”, importância esta potencializada pelos processos de diferenciação entre indivíduos, entre grupos simbólicos de características similares. Esta diferenciação que valoriza o próprio ego e o ego do grupo, não é só económica como a caricaturização do outro pela caracterização dos seus hábitos rotineiros e culturais, que estigmatizam e ostracisam, ajuda a esse facto. Em relação ao desvio, é interessante verificar como um indivíduo reage à discriminação por parte do grupo dominante, pelos valores multirreferenciais que recebe (tanto da cultura dominante, como da sub cultura a que pertence) que são considerados como correctos. Afinal… não é o desvio que é a problemática sociológica, mas sim a normatividade imposta, uma vez que sem imposição de valores, ética e regras, não há desvio nem categorização desviante.

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