Sociologia & Política

"We don't need no thought control" Pink Floyd

Tuesday, January 10, 2006

O comportamento desviante

A problemática dos movimentos sociais é bastante antiga, merecendo a atenção de filósofos clássicos como Le Bon, que via o comportamento colectivo como irracional, considerando esse facto uma perturbação da ordem existente. Por outro lado temos Marx ou Weber que viam os movimentos da acção social bastante diversos, que passavam por uma dinâmica complexa na medida em que vão sempre surgindo novos movimentos. Mas todos estes autores e seus contemporâneos têm alguns pontos comuns: há sempre fricção entre interesses, tal como Becker afirma, trazendo assim, uma interacção que acaba por ser dual, uma vez que por um lado se criam regras para uniformizar os interesses para um bem comum, como por outro lado, se põe de parte indivíduos integrantes da mesma sociedade que não cumprem essas regras. No entanto, este comportamento colectivo (isto é, colectivo na medida em que a maior parte dos indivíduos constituintes da sociedade, que interagem entre si abraçam as regras como uma moral pela qual se devem reger e assim também denunciam os indivíduos desviantes) constitui um desígnio fundado num conjunto de valores que definem a acção social com as consequências da imposição desses mesmos valores. Ora, isto é naturalmente sistémico e sistemático, assentando assim, na visão da dinâmica do sistema explicado por Howard Becker, a partir de quatro pontos principais – A interacção social, que leva ao conflito de interesses gerando regras (dominante e dominado) que eventualmente irão ser quebradas (desvio) por indivíduos que serão categorizados de desviantes. É notório assim, que um grupo social dominante tenta legitimar os seus interesses pela pressão exercida sobre os indivíduos que o compõem – as regras não assumem um papel castrador de certos actos, mas sim a categorização de desviantes, isto leva a que os indivíduos, num geral, tentem adaptar-se aos valores impostos. Mas haverá então, uma motivação desviante?

Existem pelo menos duas formas de abordar esta questão. A primeira forma consiste na afirmação de que não havendo regras inerentes a um valor, não há um comportamento desviante, uma vez que não há um padrão de comportamentos sociais a seguir. Sendo assim o individuo nunca cometeria um acto desviante uma vez que nenhum acto deveria estar categorizado por valores. O acto desviante só existe porque alguém criou essa categorização – o indivíduo não tem culpa por ter quebrado a regra, uma vez que as regras não são unidas estruturalmente a um indivíduo. A segunda forma de abordagem a esta questão assenta na base de que existe uma ordem social inerente ao sistema dinâmico de permutas socais. Por esse facto, os valores advém da própria experimentação e observação humana, isto é, que os autores de regras e valores apenas criaram um termo, uma categorização específica a um comportamento que, na perspectiva daquele grupo social não é o mais correcto. Assim sendo, o indivíduo desviante tem toda a consciência da regra que está a quebrar, e quebra-a com um propósito específico, com um interesse, algo a que poderemos chamar de Desvio para a afirmação, o autor de Outsiders, inclina-se para esta segunda apreciação. No entanto este desvio não deixa de ser condicionado, um desvio só pode ser considerado desvio se naquele determinado tempo e espaço daquele grupo social específico, o indivíduo não corresponder a uma determinada regra em vigor pelos organismos de imposição.

Em suma, a minha perspectiva sobre a problemática em questão assenta numa corrente sistémica de movimentos e relações sociais que têm um objectivo. No entanto as relações sociais trazem disparidades e conflitos, desenvolvendo assim a sociedade, na medida em que os indivíduos dominados se opõem aos dominantes voltando a produzir assim mais movimentos sociais que emergem com os novos padrões culturais que se vão verificando ao longo dos processos de interacção, mas quando um movimento não muda (nunca completamente) a sua estrutura valorativa, a massa desviante cresce, até que se torna tão comum que deixa de ser considerada como tal.

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