Sociologia & Política

"We don't need no thought control" Pink Floyd

Saturday, April 01, 2006

O culto do Belo (my version)

Estava eu ontem felissíssima a contemplar o meu novo livro "The Best In Contemporary Fantastic Art" quando me apercebi de uma coisa: a maioria das imagens são "feias"( aos meus olhos são bonitas porque estão de acordo com a minha ideia estética), são basicamente monstros, diabos, deformações, morte.. e comecei a pensar: porque é que o que é belo para nós é radicalmente diferente do que era belo há um século? A nossa reverência ao belo, mantém-se, mas são "belos" basicamente antagónicos.

Comecei a pensar historicamente (tinha de ser, não é?). A nossa geração descende de um século de puro horror, nós temos acesso a imagens e testemunhos bastante gráficos da primeira e segunda guerra mundial, em que existem oceanos de mortandade, potrefação, etc. Mas agora vocês respondem-me "pois tá bem, mas no tempo das cruzadas, na idade média, isso era o pão nosso de cada dia; no tempo dos romanos o coliseu era a festa!". A questão é que nesse tempo, a maioria das pessoas não chegava a ver esses cenários de morte, e tinha a religião como posto de apoio no caso de algum "trauma", as pessoas realmente acreditavam que iam para o céu, que Deus de alguma maneira as protegia, enquanto que o nosso século é uma idade de ateísmo, as pessoas sentem que o que há na terra, é tudo o que têm (sim, eu sou ateia!), então a ideia de morte é vista de 1 perspectiva um pouco mais fatalista. Outro factor que considero importante para esta mudança no estético é a falta de um herói, someone to look up to, não um Super Homem, mas uma personalidade de referência, a quem as pessoas (eternos carneirinhos) possam seguir, sem serem desiludidas.

Vivemos numa época de frieza e desilusão, e as ilustrações acabam a ser 1 reflexo do nosso imaginário, que, à falta de bons exemplos e de inocência, representa o "negativo", os nosso medos, a nossa eterna fixação com a morte e uma crença (não no sentido de crença religiosa, mas no sentido de acreditar que existe) no "diabo", porque "Deus" não mostra a cara há tanto tempo (relembro que sou ateia, mas consigo-me colocar na mente das massas, ainda católicas), que as pessoas deixam de acreditar que realmente possa existir (daí também o crescente ateísmo).

Claro que agora conto o contributo da amiga futura socióloga :P

4 Comments:

Blogger Ikkuna said...

Hum... tough one girl! Não estava preparada para responder, tive de amadurecer o que penso sobre o assunto. Bem, para mim há uma razão, não sei se se pode chamar histórica, talvez seja mais psico-social. Se retroceder-mos no tempo veremos que sempre houve guerra, acredito que temos evoluído bastante na nossa "barbaire", não acredito de todo que tenhamos agora mais acesso a imagens grotescas ou que a religião tenha algo que ver com isso.Temos o Barroco, o Rocócó, o Romantismo... Correntes artísticas (em todas as suas áreas) que apelam ao mórbido e grotesco, à morte. No meu ponto de vista, está implícito um gosto óbvio pela subversão em relação à beleza renascentista e idílica, até religiosa. Além disso a temática do obscuro advém tanto da religiosidade como do paganismo. A morte é por exelência algo perturbador que a religião/paganismo se esforçaram por assimilar e dar explicações sobre o depois... criando uma boa parte do imaginário popular.

[Flores] Dani...

4/02/2006 7:16 pm  
Blogger Shima said...

Pandora: Sou de facto ignorante em termos de arte, nunca tive qualquer tipo de formação (ou impulso autodidactico) sobre o assunto, limito-me a "é bonito, não é bonito" e foi exclusivamente sobre esse base que eu construí o post. A minha abordagem "pseudo-histórica" foi motivada porque foi o único meio que consegui encontrar para uma justificação do antagonismo na noção de belo.

Devils_lover: Sei que sempre tivemos acesso a mortandade,e que sempre fomos fascinados pela morte, mas não era bem a mesma coisa que é hoje, penso eu, porque havia algo em que as pessoas acreditavam que tornava a morte mais aceitável ("ah, foi para o céu, está melhor lá", qualquer coisa assim). A temática do obscuro também sempre foi dando ares da sua graça, mas pelo que eu vou vendo, hoje é predominante.

4/02/2006 8:22 pm  
Blogger Ikkuna said...

Pandora, quando falo em beleza renascentista, falo é claro, de um ideal-tipo de beleza - Não só feminina, mas também de todos os ambientes que são retratados, no campo, em opulentes espaços, etc. Lamento informar que de mim, irás sempre encontrar um bom e fundamentado conhecimento em arte, mas não o tenho em relação à História da mesma. És bem vinda, e obrigada pelos teus comentários elucidativos, mas de arte percebo um bom bocado. Talvez pudesses explicar-nos o "Porquê" de haver na arte contemporânea artistas como Royo e as suas temáticas?

4/03/2006 4:48 pm  
Blogger Ikkuna said...

PS: isto claro, de uma maneira mais aprofundada do que acima mencionado!

4/03/2006 4:50 pm  

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